quinta-feira, 29 de março de 2012

O que você lê é o mesmo que come, bebe e fuma?

Nada pareceria tão normal, como ficar em casa tomando um bom chá, soprando alguma fumaça e buscando alguma literatura na qual ele se identificasse, apesar de ser uma sexta-feira quente, com um luar tão intenso quanto os olhos daquela personagem de Machado de Assis. Ele ficara paralisado por alguns minutos procurando em sua estante de livros alguma obra que o remetesse ou remediasse aquilo que estava sentindo.
 Sem poder verbalizar seus sentimentos, ele pegara um livro no qual Clarice Lispector lhe traduzia em palavras ora confusas, ora inteligentes, em cada fragmento, a complexidade de sua existência.  Logo após ler alguns trechos da descoberta do mundo, e atrás de mais um gole de chá, ele observava a xícara, na qual servira mais um pouco daquela bebida quente.
Ficou um bom tempo a contemplar o amarelado do recipiente e a cor do chá, vermelho. Aquilo tudo lhe fazia nostalgizar sua infância, seus sonhos, questionava-se, como na escrita de Lewis Carroll, se o chá poderia ser a chave que o levasse para algum mundo além da toca.
Talvez, quem sabe, em alguma leitura ele poderia reencontrar suas personagens favoritas, sem hesitar ele levantou de sua poltrona e correu novamente ao encontro de sua estante, chegando à frente, colocou seu dedo indicador, sem medo, sobre as obras e começou a passá-lo por vários títulos, era como se passeasse por várias histórias, como se visse sua vida sendo contada através daqueles mundos, numa espécie de frenesi.
Chegou à adolescência, aquele momento primaveril onde, de súbito encontro, como se as palavras contassem sua puberdade, lembrou-se da garota de cabelos ruivos, que povoava e fantasiava sua imaginação nessa época, e que morrera de raiva, mas seus cabelos não paravam de crescer mesmo no túmulo, como do amor e outro demônios surgissem sua historia mais nobre. Como Gabriel Garcia Márquez pudera fazer isso com ele? Criar uma historia tão igual a sua, contar à história que sua avó lhe contava, escrever sobre a história da família e de seus amores?  E publicá-las tão descaradamente em seus livros? 
Achou todos aqueles pensamentos tolos, como alguém poderia prever o que iria acontecer quase 30 anos antes. Seria ele um oráculo, um místico que tivera uma epifania?
- Nada disso, respondeu para si mesmo, devo estar delirando.
Pôs o livro, raivoso, na cabeceira do seu leito e resolveu esfriar a cabeça, tomar um ar.
Foi em direção a janela, e de lá começou a observar um enorme aglomerado de janelas de um edifício. Pegou o seu binóculo e lá ficou, em cada janela que passava seu olhar, via pessoas, amando, traindo, trabalhando, cantando e dançando e ao voltar-se para o pátio do edifício, fitou uma mulher negra de estatura alta, se fazendo líder entre diversos homens que a subestimavam. Não longe dali, uma menina fazia obscenidades em baixo de uma árvore, homens bebiam e escutavam samba e cachorros magros pastavam.
Intrigado com a realidade que via, começou a fazer analogias ao Cortiço de Aluizio de Azevedo, como aqueles gestos e maneiras poderiam ser tão tipicamente iguais ao manuscrito?  Perguntara-se, como a vida poderia ser tão parecida aos livros que lia. Como as personagens poderiam contar histórias próprias, até mesmo se fazerem reais.
 Paralisado, anestesiado com a vida que via e sentia, tomava dimensões nunca por ele percebidas, entendia que a literatura que ele devorará ao longo do tempo dava sentido a sua existência. Percebera que para entender a literatura e preciso observar a vida, ser mero expectador. Para ele a Literatura era vida. E o seu sentido nada mais era do que aquilo que se vive, que se sente, contada por alguém e traduzida em papel. Perguntava-se,
- Se eu sou o que a literatura me traduz, talvez eu também seja o que eu como, o que eu bebo, e o que eu fumo. Em sumo retrato as palavras se tornam imagens e o que vejo nada mais é do que eu sinto?! Devo estar endoidecendo ou aprendendo a enxergar a vida com outros olhos, olhares que antes nunca me foram ensinados?!
Intrigado com o paradoxo que ele havia criado, acendeu um cigarro, bebericou mais alguns goles de chá e resolveu se preocupar com outros sentidos, outras estantes.  Mas isso já é outra história, e outra história, possivelmente já deve ter sido contada por outro alguém.

Especial em 10\11\11  para a antiga revista ALT @ http://www.revistaalt.com.br

domingo, 18 de março de 2012

Estudos de várias cabeças.

Para o melhor gado:


*
"Sabe aquilo? Talvez até eu saiba, 
mas não gosto, é ambíguo!"


**
"Sonhar, sonhar, sonhar,
Talvez realizar, realizar,
mas saciar, sanar, nunca!"


***
"O nó do coração também é
a cera da vela, que queima, 
derrete e um dia acaba."


****
"Os outros são os outros, 
Os mesmos são os mesmos,
cada um com os seus tropeços,
levantam e caem.
Caem e levantam mas,
continuam sendo os outros,
HUMANOS?!; porém tolos,
todos de frente para o espelho."



*****
Luan Lispector de Asiss Abreu
17\18-03-12; 
Casa da Márcia

quarta-feira, 7 de março de 2012

O apontador

Cada lápis de cor 
no seu devido lugar.
Uns já gastos, outros apontados diversas vezes, 
outros até sem ponta, 
mas o que vale realmente é estar 
dentro da caixinha, esperando
o papel à colorir.
- Nada de borracha em seu desenho,
escutou Joãozinho!
Os rabiscos a gente não apaga, 
apenas os colore com outras cores.
E assim a gente vai fazendo novos desenhos,
desenhando por cima de rabiscos, corrigindo
e aperfeiçoando imperfeições!

Memórias de um cárcere.

Em tempos como esses me pego imaginando historinhas:


Ele chega em casa depois de um dia exaustivo, acaricia seus felinos, se joga no sofá e acende um cigarro, quando que quase por um lapso do destino e por descuido lembra daquele caso antigo. Termina o cigarro, abre uma garrafa de seu melhor Whisky, toma uma, duas, três, quatro doses. Sentindo aquela euforia que só o prazer de um pileque lhe dá, ruma ao quarto, veste-se, passa um espiro de perfume. Passa a mão em seu molho de chaves, sabendo que ainda nele continham as chaves do antigo, apartamento onde dividia com seu namorado, resolve migrar para lá, para relembrar dos momentos, curtir a brisa daquela vista Maravilhosa. Acende mais um cigarro e prossegue o caminho. Chegando na frente do edifício sente aquele frio na barriga, lembranças e borboletas em seu estômago davam fôlego. Dá oi para o porteiro, gira a chave, entra, pega o elevador para o 17º andar. Enquanto o elevador sobe, ele lembra de tudo que aquelas paredes viram e ouviram durante seus meses, curtos\longos intensos. O elevador chega, ele ouve pequenos ruídos vindo daqueles corredores.
-O que será, devem ser os vizinhos, mas os vizinhos, que eram tão silenciosos, fazendo barulho? Bom, os tempos mudaram. Pensou ele.
Seguindo em direção, o som cada vez, em cada passo, ficava mais alto.
Caiu em si, aceitou ele que havia alguém, talvez mais do que o numero de pessoas que imaginava, os risos, a música ficava mais alta. 
Parou diante da porta, não sabia ele se o que fazia, tremendo colocou a chave na porta.
Respirou fundo, acendeu mais um cigarro, girou a maçaneta de vagar, a porta se abriu, as luzes apagadas, um leve breu cai sobre a sala, e ao fundo, aquela música, alta, levemente andava, em pisadas leves, foi se direcionando para a sala de estar. 
Respirou fundo, girou o botão do som no volume máximo, e quase que por um segundo sem pensar juntou um vazo de flores, admirou-as deu a última tragada no cigarro, jogou a bituca no chão, amassando-a com o pé. 
Jogou o vazo contra o aparelho de som paralisando a música, e como um besta deu seu urro de liberdade. 
As vozes se silenciaram, feliz assim, começou a quebrar todas as peças que havia dividido com seu amor, naquele lugar que chamavam de lar. 
A cada barulho de peças se partindo era como se fosse, mais um tempo de liberdade, mais uma sensação de prazer inexplicável.
As vozes se silenciaram, as dores sanaram.
Cai sobre o chão, tem suas lágrimas misturadas com risos, que não sentira mais. 
A porta do quarto se abre, passos no corredor, o reencontro fatal entre o sonho e a realidade se misturavam.
Simples assim, como um cair de tarde.